Sociólogo fala sobre as consequências sociais que a novela pode trazer

“Não há nada errado em os artistas fazerem militância e tomarem suas posições, o que não é correto é montar um quadro irreal do adversário ideológico”

Nós conversamos com o sociólogo pela UFPE, Marcondes Soares, que deu a sua opinião sobre a importância das novelas na sociedade e sobre a abordagem de Babilônia.

Aspas: A rede globo tem um grande alcance no território brasileiro. Com toda essa abrangência, você acredita que a novela principal da casa tem um poder encantatório pra influenciar o público?

Marcondes: Esse debate é antigo: A teledramaturgia retrata a realidade social ou formata essa realidade? Se considerarmos os recursos pedagógicos usados para formação de crianças e adolescentes, não é sábio subestimar o uso da TV nessa formação.

Aspas: A gente percebe um conceito de família diferente do que era mostrado há cinco anos atrás, por exemplo, isso tem gerando um debate muito grande dos mais conservadores. Você acha que esse debate foi um ponto positivo para a sociedade?

Marcondes: Entendo que é positivo somente no sentido de lançar a discussão, mas é muito anti-democrático e negativo, não porque toma uma posição quanto à nova configuração familiar, mas porque retrata a família tradicional de maneira negativa, descrevendo os que se opõem a nova configuração de maneira pejorativa, polarizando a discussão e construindo um mundo de mocinhos e bandidos, que chega a ser manipulador.

 Aspas: Através do seu facebook, você citou que novela é pura engenharia social. Pode explicar como essa engenharia é feita?

Marcondes: Na verdade, vi essa expressão usada pela primeira vez por um pedagogo em Minhas, Igor Miguel, e achei bastante curioso. Lembrei de um diálogo de uma novela, em que uma mãe tinha perdido uma criança através de um aborto espontâneo, sua filha mais velha pergunta:

– Mamãe, o bebê morreu?

– Não querida, ele não morreu porque ele nunca nasceu – responde a mãe.

A ideia que se quer passar é que a vida intrauterina não é vida, enxerguei nisso, em um núcleo infantil de novela, pura educação para aceitação do aborto, desconstruindo a dignidade da vida intrauterina, tratando como algo inferior. Lembro, ainda, de um relato de uma feminista que assistiu pela primeira vez um programa de humor extremamente ofensivo, machista. Ela desligou a televisão e no outro dia ela assistiu outra vez e o episódio era mais leve. Um mês depois, quando foi reprisado o episódio que a chocou, ela viu com tranquilidade, até que ela percebeu que a programação da TV sutilmente estava minando seus valores de gênero,  fazendo com que ela aceitasse o inaceitável, por uma insensibilidade desenvolvida por meio das programações.

Aspas: A gente sabe que todo texto, filme, música, enfim, toda arte carrega consigo uma ideologia. Qual é a ideologia da novela Babilônia? E a partir de que ela surgiu?

Marcondes: A novela Babilônia carrega, em seu núcleo, uma ideologia de gênero, a ideia de que feminino e masculino são apenas papeis sociais e não intrínsecos ao homem e a mulher. E essa ideologia se repete nas novelas da Rede Globo, repetindo a temática de gêneros e homoafetividade.

Aspas: Uma novela não tem obrigação de ser imparcial como um jornal, por exemplo. Mas você considera correta a maneira em que este folhetim, especificamente, persuade o espectador?

Marcondes: Certamente não tem obrigação de ser imparcial, ela se posiciona. Se coloca mais pelos valores liberais que, junto com a esquerda, têm em comum essa questão ideológica de gênero no contexto das liberdades individuais, por isso você não pode acusar a Rede Globo de esquerdista. Entretanto, ela tem um comprometimento com valores burgueses liberais que vêm os valores dos povos tradicionais do mundo como ultrapassados. Não há nada errado em os artistas fazerem militância e tomarem suas posições, o que não é correto é montar um quadro irreal do adversário ideológico, pintando-o como hipócrita, ignorante etc.

Aspas: No século XIX tivemos muitos debates em relação aos mesmos temas, com o advento do Realismo, temas como casamento, família tradicional e igreja foram desmoralizados nos livros da época. Na sua opinião, você acredita que estamos vivendo esse realismo na novela brasileira?

Marcondes: Não sei se o termo realismo é adequado. Na verdade, o fenômeno atual é chamado de pós-modernidade, a relativização da “verdade” e o criticismo histórico de todas as estruturas sociais tradicionais, sem uma reflexão sobre as consequências futuras dessas mudanças engenhosas, que não estão acontecendo de forma espontânea, mas de forma intencional, pura engenharia social.

Neide Andrade

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