Ser um homem feminino

“Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.” Mal sabia o poeta Carlos Drummond de Andrade que o mesmo anjo não apenas o predestinou como a diversos gauches pelo mundo. Allano é um deles. Vindo de um subúrbio do município de Abreu e Lima, na cidade de Paulista, para Olinda, sua atual residência, Allano Lima, 31 anos, é tímido, desconfiado. Fala bem, mas não foge do necessário. É o típico gauche estereotipado há décadas por Drummond; quieto, sem muita aptidão aparente, até desajeitado.

Chica Chiketh, não. Munida de seios falsos, mais de 30 vestidos e de 40 perucas, além de diversos adereços fishy – termo utilizado no mundo drag para definir uma drag queen que é extremamente feminina ou  até que faça alusão a uma “mulher de verdade” – ela rouba qualquer atenção.

‘Espalhafatosa’ poderia até ser uma descrição para a montagem, se Chiketh não fosse seu sobrenome, fazendo uma clara referência à elegância da personagem. Ou seria alter ego? Sendo o oposto do seu criador, a “criatura” fala mais, sorri largamente, canta, dança, faz piadas.

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Allano passa cerca de uma hora para se transformar em Chica (Foto: Maria Luiza Veiga)

Allano, intérprete de Chica Chiketh há 12 anos, lida diariamente com a falta de conhecimento das pessoas com sua arte de ser uma drag queen. Afinal, é preciso reconhecer que se tornar uma mulher do zero, da cabeça aos pés, é uma façanha para poucos. A cultura drag americana se tornou tão forte que desde 2009 há um reality show só sobre drag queens, o “RuPaul’s Drag Race“. Para conhecer mais sobre o reality e seu idealizador, clique aqui.

Allano começou a se montar de drag queen por acaso. Aos 19 anos ele participava do Terapia do Riso, grupo de voluntários que vai à hospitais para alegrar pacientes internados, e se vestia de palhaço. Em uma festa junina, a brincadeira do grupo era a troca de papéis: mulheres se vestiam de homens e o oposto. “Nesse dia eu vesti um vestido de quadrilha, botei uns peitões, bundão, bem feito vovó Mafalda do cinema, e o pessoal brincou muito e adorou. Fomos fazer outro evento beneficente e, ao invés de levarem minha roupa de palhaço, levaram o vestido. Começou assim, depois eu saí do grupo e comecei a fazer evento em lojas e as coisas foram crescendo espontaneamente”, ele conta.

Hoje Chica não é só paixão, é trabalho. Ele optou por fazer a personagem como profissão e cobra por volta de R$300 por hora de apresentação; em contrapartida, o custo de ser Chica com suas variadas roupas, cabelos e acessórios não é baixo. Salto alto 44 é sob encomenda.

Mas ser, de fato, um homem feminino, implica em muito mais que usar roupas de mulher e maquiagem no rosto; é lidar, acima de tudo, com o preconceito, o socialmente aceito e o estereótipo de outra realidade que não a dele.

O preconceito

Allano sempre vai pronto de Chica para os eventos. Ele acredita que se montar na frente dos outros “perde o encanto”. Drag queens como Chica vivem de comédia, se apresentando em aniversários, noivados, bodas, despedidas de solteira. Nesses eventos os mais velhos e os mais religiosos olham feio, custam a aceitar. O olhar de reprovação dói tanto quanto uma palavra não dita – ou ainda dita em forma de brincadeira. Com sua malemolência “chickethiana”, ela faz o possível para agradar todo o público, mas, já ouviu de tudo. “Eu saia de ônibus para os shows porque eu não tinha carro, ai você sabe, soltam piadinhas, você escuta todo tipo de comentário, mas, aos poucos, eu fui conseguindo conquistar o meu espaço, e eu sempre impus respeito, independente do que eu tivesse fantasiado eu não ficava trocando as ofensas, ficava calada”, argumentou.

Sobre a aceitação da família e dos amigos como ser drag profissionalmente, houve uma rejeição inicial, especialmente por parte da mãe. Chica “bateu de frente” e Allano diz que hoje o maior orgulho da mãe é saber que ele trabalha assim, fazendo o que ama.

O socialmente aceito

Além de lidar com comentários desrespeitosos, há também um pré-conceito do seu público do que é uma drag queen e de como ela se comporta. Para acabar com os tabus, ela age diferente: “Quando a gente chega o impacto é grande. Por ser drag queen, o povo já tem um choque por achar que vai chamar palavrão, por achar que vai fazer algo que deixe qualquer pessoa constrangida, por achar que vai ser vulgar. Eu fui para um chá de panelas de uma menina evangélica, só tinha meninas da Assembleia de Deus, mas não tem problema não que eu não trabalho com palavrões, minhas brincadeiras são lights. Lógico que com esse público você fica com medo de não ser bem recebido, mas no final todas adoraram, eu ajustei meu perfil para o público”, Allano completa.

A razão de sua popularidade com o público é por ter escolhido pertencer aos conceitos de “socialmente aceito”; ou seja, aquilo que não nos amedronta por ser estranho e não nos é desconhecido. Ela age com elegância, discrição, sabe entrar e sair naturalmente em seus eventos.

O estereótipo de outra realidade que não a dele

Há quem acredite que drag queens se montam para trabalhar com prostituição, o que não é regra geral, e sim exceção. Assim como uma pequena parcela de mulheres e homens se prostituem para ganhar dinheiro, drags também. A cultura drag se relaciona mais com performances musicais de dança e de dublagem, ou com stand up comedy, um tipo de apresentação humorística em que apenas um comediante se apresenta, sem muitos cenários e geralmente em pé. Por estereótipos ligados ao sexo como este, Chica já foi convidada para sair por um cliente depois de animar um aniversário. “Já aconteceu de cliente ligar pra mim e dizer “Chica você tá livre mais tarde?” e  ter que explicar que ele estava confundindo meu trabalho, que eu não trabalho assim. Depois da explicação sempre vem o pedido de desculpas e implora para que eu não conte para a família, já que eu acabei de sair do evento”, conta.

Além dos clientes, há também os homens que a procuram em suas redes sociais chamando-a para sair. Ao receberem um “não” como resposta, fazem todo tipo de xingamento, conta Allano “eles vem a minha procura e como não dou cartaz para a paquera eles começam a me ofender, me xingar de viado, de tudo, mas eles que me procuram”.

Na fanpage do Aspas Aeso no Facebook foi lançada uma pergunta aos internautas: Você sabe a diferença entre drag queen e travesti? Ambos se caracterizam de mulher, mas há uma linha tênue que os distingue e é desconhecida pela maioria das pessoas, não havendo, de modo geral, a distinção entre os dois. Contudo, a maior parte dos internautas não apresentou dúvidas quanto às diferenças.

O internauta Virgilio Neto deu a sua definição: “(a drag) pode até parecer um pouco mais caricatural (uma estilo meio “drama queen” talvez) então muitas vezes acabam fazendo parte de shows, apresentações em bares e tal. Já a travesti se sente bem no simples fato de estar vestida de mulher e de se ver e ser vista como tal, independente de qualquer outra coisa”.

O também internauta Luiz Felipe Silvestre diferencia como “travestis são pessoas que não se identificaram com o seu gênero de nascença e aderiram às características do gênero oposto. Sua identidade de gênero está alojada em um corpo que não lhe pertence e para se sentirem confortáveis vivem a realidade do gênero que se identificam. Drag queen é uma forma de expressão que se baseia em criar uma ilusão feminina, ou seja, um homem que se veste como mulher (…) Uma drag queen não pretende viver a realidade de uma mulher 24 horas por dia, mas sim tomar isso como um hobby ou uma profissão”.

Na concepção de Allano, que é bem parecida com a de ambos, a drag queen é o homem que se veste de mulher de forma exagerada, é um personagem exagerado – com sobrancelhas artificiais, maquiagem pesada, roupas coloridas – para fazer rir ou então pra fazer performances de dança e canto em boates, mas não com prostituição. “Travesti é um gênero sexual, são pessoas que nasceram no corpo errado e fazem toda transformação pra se sentir bem”, conclui.

Transformar a si em corpo, em mente, ou ambos para alcançar o que seria o “nirvana” – que no budismo é o estado de libertação do sofrimento e a superação da existência, a transgressão do físico, a conquista da paz interior – é parte do processo de aceitação de ser quem realmente é. De ser drag queen, travesti, transexual, crossdresser, de ser aceito – por si e pela sociedade – em cada uma dessas variadas formas individuais.

Confira o antes e depois de Chica Chiketh:

https://youtube.com/watch?v=3u3niGoleyQframeborder%3D0allowfullscreen

Por Maria Luiza Veiga

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