BR-101: importante e esquecida

Como uma rodovia que corta boa parte da Região Metropolitana do Recife sofre com o descaso e abandono do poder público

Por Edson Mota

A Rodovia Governador Mário Covas, mais conhecida como BR-101, foi criada pelo Exército Brasileiro durante as décadas de 1950 a 1970 para cortar o Brasil e facilitar o transporte terrestre no país continental. Em Pernambuco, ela foi construída em meados da década de 1960, atingindo boa parte da Região Metropolitana do Recife. Ao todo, o chamado “contorno urbano” passa pelas cidades de Igarassu, Abreu e Lima, Paulista, Recife e Jaboatão dos Guararapes (confira infográfico abaixo), totalizando cerca de 30 quilômetros de problemas tão antigos quanto a própria estrada. A reportagem ouviu especialistas, motoristas e uma jornalista especialista na área pra saber o que pode ser feito para salvar uma das principais estradas do Estado.

Para entender a história, é preciso voltar ao passado. A rodovia sempre foi cuidada pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) até o ano de 2013, quando a responsabilidade daquele trecho ficou com a Secretaria Estadual de Cidades. A área sempre foi um perigo para motoristas e pedestres que moram no entorno da rodovia, pois, além de conter várias ondulações, a BR sofre com buracos que podem ferir qualquer motorista desavisado. Desde que o contorno urbano da BR está nas mãos do Estado, o Governo tenta achar uma empresa que aceite fazer a Operação Tapa-buraco na rodovia. Um paliativo que não resolve, principalmente às vésperas do período chuvoso. Além disso, o lixo às margens da rodovia e a alta vegetação facilitam a ação de bandidos, que se aproveitam do descaso para atacar suas vítimas.

De acordo com dados fornecidos pela Polícia Rodoviária Federal, pelo contorno urbano circulam cerca de 58 mil veículos por dia, sendo 20% caminhões. A reportagem andou pela área e não encontrou nenhuma fiscalização de peso dos carros pesados. Isso, em longo prazo, desgasta a estrada, já que os veículos costumam levar muito mais do que a estrada pode aguentar. Como resultado, camadas de asfalto são jogadas por cima das placas de concreto, tornando um ciclo vicioso. É o famoso “barato que sai caro”.

Além de tudo isso, a alta vegetação, placas deterioradas e passarelas — quando existem — sem nenhuma segurança para os pedestres também dificultam. Muitas pessoas se arriscam até a atravessar a pista, já que, para elas, o perigo na BR está em todos os lugares. O desafio é maior para quem mora próximo à estrada. A estudante Lydianne Costa sabe bem das dificuldades. Segundo ela, não é só o barulho dos carros que incomoda as pessoas que residem às margens. “Já acordei várias vezes no meio da noite com tiros ou com acidentes. É constante isso por aqui”, comenta.

Lydianne não é a única que tem queixas do estado caótico da rodovia. Em pesquisa realizada na internet, várias pessoas comentaram sobre o que, para elas, poderia ser uma das causas da situação da estrada.

Nas redes sociais, a opinião é a mesma: falta investimento do governo para a BR-101

Gráfico
Em pesquisas realizadas pela internet, a grande maioria das pessoas acham que a rodovia tem, sim, uma solução

Pensamento semelhante tem o caminhoneiro Manoel Alves, de 52 anos. Ele, que passou metade da sua vida transitando pela principal rodovia nacional, mora no bairro de Paratibe, em Paulista, na RMR, e anda diariamente pela rodovia, lamenta que o Estado não conserve as estradas. “Não faz cinco meses que o trecho que corta o bairro foi recapeado. Hoje, se encontra em ruínas”, afirma. Segundo Manoel, é um desafio andar pelo contorno urbano nos horários de pico. “Para chegar às 10h na Ceasa, na Zona Oeste do Recife, é preciso sair de casa às 6h30. É realmente estressante andar por aqui”, diz. Manoel ainda diz que passou por um sufoco graças aos buracos da BR. “Um dos pneus furaram às 4h da manhã no bairro da Guabiraba (Zona Norte). Foi uma agonia, pois não tinha ninguém pra ajudar”, lamenta.

Entretanto, o pensamento de Manoel — de que a culpa é somente do Estado — não é compartilhado por todos. A jornalista Roberta Soares, que escreve para a coluna De Olho no Trânsito, do Jornal do Commercio, afirma que os caminhoneiros são uma das principais causas das estradas estarem na situação em que se encontram. “Muitos motoristas não respeitam o excesso de peso nas rodovias. Além disso, falta uma maior fiscalização no contorno para que problemas no recapeamento não aconteçam”, afirma. Além disso, Roberta critica o modo de recuperação feita pelo Governo do Estado. “O que falta é vergonha na cara das pessoas responsáveis. A rodovia ficou ultrapassada, mesmo sendo duplicada. É um erro querer tapar uma placa de concreto. O correto não é apenas fechar o buraco. O certo é refazer a rodovia, substituindo as placas que estão deterioradas por novas”, fala.

Em resposta, a Secretaria das Cidades, responsável pelo contorno urbano, fez coro à fala de Roberta, informando que a estrada que corta a Região Metropolitana do Recife foi construída há algum tempo e que, provavelmente, a vida útil dos materiais da estrada já passou. Além disso, a Secretaria informa que o tráfego de veículos na rodovia deve estar superior ao previsto no projeto inicial, o que aumenta ainda mais o desgaste. Quando perguntada sobre o projeto de recuperação total da estrada, a assessoria de comunicação informou que o projeto de requalificação e melhoria geral da rodovia no trecho que entre o Terminal Integrado de Abreu e Lima e o T.I. Cajueiro Seco, em Jaboatão dos Guararapes está sendo planejado, possivelmente, para o próximo mês.

Por fim, o governo afirmou que está em fase final de contratação de uma empresa que ainda será escolhida. Além do recapeamento, o Estado se comprometeu a cuidar da alta vegetação e dos trechos onde falta iluminação. A previsão é de que os serviços de manutenção iniciem no próximo mês. O que torna a situação preocupante é o temido período das chuvas que acomete o Estado, fato esse que irá dificultar a ação de recuperação.

Ao que tudo indica, a ideia de que a culpa da degradação é do Governo e dos carros pesados que trafegam na rodovia é geral. Para o engenheiro Gustavo Gurgel, a presença maciça da indústria e do comércio no contorno urbano põe a estrada em uma situação de risco para quem anda por lá. “A parte entre Igarassu e Paulista, principalmente, existem muitas empresas. Com isso, o fluxo de veículos tende a aumentar, o que gera um maior desgaste”, afirma. Para ele, só uma requalificação geral resolveria a situação. “Falta controle dos veículos e alguém pra assumir o conserto da BR. Até lá, os buracos, acidentes e a insegurança continuará a rondar uma das principais vias de acesso do país em Pernambuco.

dddA situação da BR-101 não é a única no Estado. Veja aqui a opinião de algumas pessoas sobre a degradação da BR-232

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